Zii e Zie por Tiago Superoito

17 04 2009

Ainda não tive a oportunidade de ouvir o novo disco do Caetano, mas confesso que minha ansiedade aumentou depois que li esta resenha do Tiago Superoito.

capacaetanojanela

É fascinante, por exemplo, identificar nas canções o rastro de ideias que apareceram nos textos do blog. Quem leu o site, mesmo esporadicamente, sabe que Caetano adorou Última parada 174, ficou surpreso com o álbum solo do Marcelo Camelo e comparou Rio a São Paulo de mil e uma maneiras. Conscientemente ou não, são temas que acabam se infiltrando nas canções. A intensidade da colaboração entre Caetano e os leitores está refletida no CD — e só quem acompanhou o blog chegará a esse degrau do álbum. Taí uma verdadeira ousadia — um disco-blog, no sentido mais transgressor do termo. Confessional, mas também polifônico. Algo que eu nunca tinha visto (mesmo que mínimo, existe um valor nos blogs, não existe?). (…)

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V.

26 09 2008

“De alguma forma, tudo se ligava a uma história que ouvira certa vez, sobre um menino que nascera com um parafuso de ouro no lugar do umbigo. Durante vinte anos, ele consulta médicos e especialistas em todo o mundo, tentando livrar-se do tal parafuso, sem sucesso. Finalmente, no Haiti, encontra um feiticeiro de vudu que lhe dá uma bebericagem malcheirosa. Ele a bebe, dorme e tem um sonho. No sonho, vê-se numa rua iluminada por lâmpadas verdes. Seguindo as instruções do feiticeiro, dobra duas vezes à diretia e uma à esquerda, partindo de seu ponto de origem, encontra uma árvore junto à sétima lâmpada de rua, toda coberta de balões coloridos. No quarto galho de baixo para cima há um balão vermelho; ele o estoura e lá dentro há uma chave de fenda com cabo de plástico amarelo. Com a chave de fenda, remove o parafuso da barriga, e assim que isso acontece ele acorda do sonho. é de manhã. Ele olha para o umbigo, o parafuso desapareceu. A maldição de vinte anos foi finalmente suspensa. Delirante de alegria, ele salta da cama, e sua bunda cai.”

Thomas Pynchon





[bebadomundo

2 08 2008

“É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se. E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.”

Charles Baudelaire





La Nausée

8 07 2008

“Portanto, ocorreu uma mudança durante essas últimas semanas. Mas onde? É uma mudança abstrata que não se fixa em nada. Fui eu que mudei? Se não fui eu, então foi esse quarto, essa cidade, essa natureza; é preciso decidir.

* * *

Acho que fui eu que mudei: é a solução mais simples. A mais desagradável também. Mas enfim tenho de reconhecer que sou sujeito a essas transformações súbitas. O que acontece é que penso muito raramente; então, uma infinidade de pequenas metamorfoses se acumulam em mim, sem que eu me dê conta, e aí, um belo dia, ocorre uma verdadeira revolução. Foi isso que deu à minha vida esse aspecto vacilante, incoerente.”

A Náusea, Jean-Paul Sartre, 1938.





Roth em primeira edição

9 04 2008

Puxa, as coisas que a gente perde, pensou, quando dá uma loucura na cabeça de ir passeando, numa descida pelo barranco até o rio, ficando lá ao sol, bem na beirada, abrindo os bolinhos, comendo primeiro a crosta e depois a parte a que aderia o recheio, pensando: “Vinte anos. Vinte anos de idade. Roy Bassart tem vinte anos de idade”. Olhava o rio passando e achava que a água era como o próprio tempo. Alguém devia escrever um poema a respeito daquilo, pensou, e em seguida ocorreu-lhe: “E por que não eu?”

A água é como o próprio tempo,

Passando. . . passando. . .

A água é como o próprio tempo,

Correndo. . . correndo. . .

. . .

Trecho de “As Melhores Intenções, um romance de Philip Roth que estou tendo o raro prazer de ler em uma primeira edição, um calhamaço de janeiro de 1972. Adoro Roth, é um dos meus favoritos.





Instantes

20 03 2008

 

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Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiênico.

Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida, claro que tive momentos de alegria.

Mas se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas. Se voltasse a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas já viram, tenho oitenta e cinco anos e sei que estou morrendo.

 

JORGE LUIS BORGES (1899 Argentina – 1986 Genebra-Suiça)





Palavras de Daniela dos Santos

17 03 2008

daniela

“Eu queria era escrever.
E queria que o meu escrito fosse uma criatura monstro sem rosto, que desse ao leitor um sorriso cínico, com um aperto amargo de prazer no fundo da garganta, logo antes de desferir sobre ele um tapa pesado e tosco, traindo a confiança que me fora depositada, desperdiçando a benevolência e a boa vontade daqueles que lançaram olhos às minhas palavras, queria era ser execrável, asquerosa como vermes ou doenças, queria escrever mendigos chagásticos e bêbados, mas não os sei, então desenho sombras de órgãos, sujo meu texto de catchup e digo que era sangue, fico só eu, sem rosto, amargando o cheiro doorido do ferro nas polpas dos dentes.”

[Mais dela Aqui. Aliás, tenho que dizer que este é um blog que ajudei a criar/ligar/parir. O conteúdo é genial e exclusivo, e surge (com pouca frequência, mas com qualidade) diretamente da massa encefálica de Daniela dos Santos.]