lê minski?

3 03 2009

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andar e pensar um pouco

que só sei pensar andando

três passos, e minhas pernas

já estão pensando.

aonde vão dar estes passos?

acima, abaixo?

além? ou acaso

se desfazem ao mínimo vento sem deixar nenhum traço?

(Paulo Leminki, La vie en close.)





Bom filme, belo poema.

10 12 2007

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Assisti “A Via Láctea” no cine ouro, ao lado de minha “irmã” Nara, numa sessão de premiados do Festcine. Faz algum tempo, mas recordo que era segunda-feira, uma tarde sem amigos, já me arrumava para ir sozinho ao cine ouro, quando decidi chamar Nara pra ir comigo. Nem botava fé que ela iria botar fé de ir comigo, mas no fim acabou indo. O filme me chamou a atenção por ser diferente do padrão de filmes brasileiros, que são, geralmente, ou de violência sensacionalista ou cópias fajutas de novelas da Globo. A Via Láctea é poético, é um filme totalmente original, com o qual Lina Chamie assumiu o risco de experimentar uma linguagem cinematográfica ousada e ambiciosa.
A narração é fragmentada, a câmera se fixa nos imensos jogos de luzes da noite paulistana, dos faróis dos carros à luz das estrelas, enquanto a música de Schubert e Mozart, que se funde com o barulho da cidade, aparece como um elemento dramático de narração tão importante, às vezes mais, que os diálogos.

A melhor cena do filme, se dá quando um interessante jogo de palavras se forma enquanto Marco Ricca, com sua voz em off, narra Chuva Interior, uma bela poesia de Mário Chamie.

Segue abaixo o belo poema de Mário Chamie.

Chuva Interior

Quando saia de casa
percebeu que a chuva
soletrava
uma palavra sem nexo
na pedra da calçada.

Não percebeu
que percebia
que a chuva que chovia
não chovia
na rua por onde
andava.

Era a chuva
que trazia
de dentro de sua casa;
era a chuva
que molhava
o seu silêncio
molhado
na pedra que carregava.

Um silêncio
feito mina,
explosivo sem palavra,
quase um fio de conversa
no seu nexo de rotina
em cada esquina
que dobrava.

Fora de casa,
seco na calçada,
percebeu que percebia
no auge de sua raiva
que a chuva não mais chovia
nas águas que imaginava.





Paulo Autran recitando Carlos Drummond de Andrade

16 11 2007

autran

 

Paulo Autran foi, sem dúvida, o maior ator brasileiro de todos os tempos. Com seu indiscutível talento deixou sua marca na história do teatro, do cinema e da televisão brasileira. Morreu recentemente, aos 85 anos, vítima de um câncer no pulmão (Quem mandou fumar?).

Carlos Drummond de Andrade foi um dos principais poetas da literatura brasileira. Como poeta modernista, utilizou uma linguagem simples e bela em diferentes ritmos e conseguiu assim, certa popularização de seus poemas em um país onde se lê muito pouco. Seus versos entraram para a história da literatura brasileira e ele chegou a ser considerado por muitos como o maior poeta do século XX. No entanto, Drummond insistia que seria esquecido em pouco tempo. Não foi e não será. Porque todos sabem que nos versos, o poeta continua vivo.

A seguir um material imperdível! Paulo Autran recitando três poemas de Drummond: Quero, Poeta de sete faces e José.

Para fazer o download clique aqui ou na imagem.





O Amor, quando se revela…

28 10 2007

 

 

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O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

 

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

 

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

 

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

 

Fernando Pessoa